Tuesday, December 14, 2004

Simplesmente assim

Os céus negros
Suspensos de lamaçal
Pegados de mal
Vingam-se de traições
Estendem-se em vendavais submersos
E nenhum se abre à tua mão.

Correntes de ar e sol
Nos negativos de sal
Fotografam sorrisos
E dentes brancos
Com a cal do Alentejo
Nas tuas vazias mãos.

As janelas estavam sem chama
No sol posto distante de tudo
Inclinei o olhar
E vazio foi o teu sorriso,
Tinha feridas no recanto do fogo
Que me deu para sonhar fechado.

O cofre era amarelo
Como as torradas e a manteiga das manhãs
Nelas não havia sentido nenhum
Pois de cofre só tinham a cor
Fechei e enterrei o passado
Porque nele existi apenas só.

As pontes nos rios passaram
Em relâmpagos alaranjados
Nas ruas submersas de mim
De ilusões desfeitas em ti,
Pois respiro o ar na sombra desse olhar que vive assim.

Simplesmente assim.

Saturday, December 11, 2004

Postal de natal

O vento que ainda despe as ruas
Nuas de prazer sem saber porquê
Nas lojas fechadas e isoladas em correntes
De aço e força de esconder sabe-se lá o quê.
Rasgam a noite triste,
Como cartas vazias ou natais perversos.
Sempre a mesma fantasia
Nestes cem mil universos.

Fumo um cigarro no frio
Caído, como um sem-abrigo
Estou só nesta rua deserta
Cheia de cor e natal
Sempre fui sozinho
E por isso mando-te este postal.

Guarda-o.
Sente-o, pelo menos uma vez
Com todo o meu sorriso
Que te dei, e dou mais esta vez.

O frio desfaz-me as palavras
Bem sei que não podes ver
Nem sentir o meu coração a bater,
Mas acredita que ainda bate forte
Só para te ver.

Não existe sentido, não existe caminho
Os teus olhos foram vazios
E eu que puro fui e sou
Choro nas tuas mentiras.

Mas sei que não,
Que não haverá ninguém
Que gostasse tanto de conhecer o teu interior
Como eu.
Que gostasse tanto de ti,
Como eu.

Mas deixo-me de que’s
E comparações,
A verdade é que nunca gostaste de mim
E são essas as conclusões.
Fecho melhor este casaco
Assino o postal
E caminho pela rua
Pelo natal
Sozinho
A recordar o teu sorriso.

Dobro a esquina
Desta rua cansada
Cheia de natal.

Que agora fica sozinha
Presa pelo vento
Solta pelas luzes
Esta rua vazia
E cheia
A tua prenda de natal.

Wednesday, December 01, 2004

Queixo

*para o meu avô

Esfregava-te o queixo no ombro,
- Havia dias assim.
E tu sorrias para mim,
Na paixão da música
E na tarde de um quarto
Que te enxia num abraço.

Partiste,
Mas ficaste.
Dentro.
Bem dentro de mim,
Na saudade que sempre espreita
Fria de ser assim.

Não te vi partir,
Não queria sentir o sofrer.

E longe
Longe estás
Mas perto,
Ficas sempre,
Aqui guardado.

10-07-2004